(UEL - 2013)
No livro Através do espelho e o que Alice encontrou por lá, a Rainha Vermelha diz uma frase enigmática: “Pois aqui, como vê, você tem de correr o mais que pode para continuar no mesmo lugar.”
CARROL, L. Através do espelho e o que Alice encontrou por lá. Rio de Janeiro: Zahar, 2009. p.186.
Já na Grécia antiga, Zenão de Eleia enunciara uma tese também enigmática, segundo a qual o movimento é ilusório, pois “numa corrida, o corredor mais rápido jamais consegue ultrapassar o mais lento, visto o perseguidor ter de primeiro atingir o ponto de onde partiu o perseguido, de tal forma que o mais lento deve manter sempre a dianteira.”
ARISTÓTELES. Física. Z 9, 239 b 14. In: KIRK, G. S.; RAVEN, J. E.; SCHOFIELD, M. Os Pré-socráticos. 4.ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1994, p.284.
Com base no problema filosófico da ilusão do movimento em Zenão de Eleia, é correto afirmar que seu argumento
baseia-se na observação da natureza e de suas transformações, resultando, por essa razão, numa explicação naturalista pautada pelos sentidos.
confunde a ordem das coisas materiais (sensível) e a ordem do ser (inteligível), pois avalia o sensível por condições que lhe são estranhas.
ilustra a problematização da crença numa verdadeira existência do mundo sensível, à qual se chegaria pelos sentidos.
mostra que o corredor mais rápido ultrapassará inevitavelmente o corredor mais lento, pois isso nos apontam as evidências dos sentidos.
pressupõe a noção de continuidade entre os instantes, contida no pressuposto da aceleração do movimento entre os corredores.
Gabarito:
ilustra a problematização da crença numa verdadeira existência do mundo sensível, à qual se chegaria pelos sentidos.
c) Correta. ilustra a problematização da crença numa verdadeira existência do mundo sensível, à qual se chegaria pelos sentidos.
A questão exige muito da lógica e não necessariamente cobra conhecimentos sobre Zenão, filósofo grego conhecido por seu paradoxo sobre o espaço.
Na nossa lógica, de acordo com as leis da física, se uma pessoa corre atrás de outra que anda, esta última é ultrapassada. No argumento de Zenão sobre a ilusão do movimento, é problematizada a ideia de que o espaço é divisível: o pensador parte da suposição de que a verdade do espaço é sua divisibilidade, enquanto que, na nossa concepção, isso é impossível. Ou seja, se utiliza de uma hipótese que quebra as leis da física para provar seu ponto de vista, fugindo das convenções científicas para propor uma nova teoria, uma nova forma de pensar, mesmo que impossível. Ele nos pede para fazer um exercício de imaginação e supor que o espaço se divide, para fazer valer sua teoria de que o mais lento está sempre na frente do mais rápido.
Essa é a hipótese: considerando uma possível divisão do espaço, deve-se notar que seria impossível um cachorro, por exemplo, ultrapassar uma formiga numa corrida, pois, para fazê-lo, o cachorro teria que ultrapassar a metade da distância entre eles, e depois a outra metade, e daí em diante infinitamente, pois o espaço seria divisível. A afirmação de Carroll transcrita na questão mostra uma quebra do espaço e do tempo, mas especialmente do espaço: nesse espectro, as leis da natureza não correspondem à realidade, e isso se associa à filosofia de Zenão no sentido de que há essa divisão do espaço, com desconsideração às leis da física.
Partindo do pressuposto de que o espaço é divisível, o filósofo se utiliza da lógica da ilusão. A crença na existência do mundo sensível é problematizada pela sua proposição, ao considerar que o espaço é divisível. Então, podemos afirmar que o argumento de Zenão problematiza o mundo dos sentidos, conhecido por todos que o experienciam; a quebra do espaço considera possibilidades além dessa realidade, sem as leis da física, e isso é a problematização do mundo sensível.
a) Incorreta. baseia-se na observação da natureza e de suas transformações, resultando, por essa razão, numa explicação naturalista pautada pelos sentidos.
Não se baseia na observação da natureza, por que, se assim fosse, não se utilizaria de uma hipótese contrária às leis da física, além de não apresentar uma explicação baseada na experiência sensorial.
b) Incorreta. confunde a ordem das coisas materiais (sensível) e a ordem do ser (inteligível), pois avalia o sensível por condições que lhe são estranhas.
Ele não avalia o sensível e o inteligível (esta é uma visão platônica) e não fala sobre as condições estranhas ao sensível.
d) Incorreta. mostra que o corredor mais rápido ultrapassará inevitavelmente o corredor mais lento, pois isso nos apontam as evidências dos sentidos.
Ele fala exatamente o contrário.
e) Incorreta. pressupõe a noção de continuidade entre os instantes, contida no pressuposto da aceleração do movimento entre os corredores.
Não fala sobre aceleração, mas sobre a divisão do espaço.