(UFU - 2018 - 1a FASE)
Parado, com a colher suspensa sobre a bancada de aço inox, o sujeito atravancava minha passagem. Ia enfiá-la no pote de ervilhas, arremeteu, pousou-a na bandeja de beterrabas, levantou uma rodela, soltou-a, duas gotas vermelhas respingaram no talo de uma couve-flor. Fosse mais para trás, lá pela travessa do agrião, eu poderia ultrapassá-lo e chegar aos molhos a tempo de colocar azeite e vinagre antes que ele se aproximasse, mas da beterraba aos temperos é um passo e então seria eu a atrapalhar sua cadência. (Segundo a etiqueta não escrita dos restaurantes por quilo, a ultrapassagem só é permitida se não for reduzir a velocidade do ultrapassado – o que seria equivalente a furar a fila).
Tudo é movimento, dizia Heráclito; o mundo gira, a lusitana roda, anunciava a televisão: só eu não me mexia, preso diante da cumbuca de grãos de bico com atum. Fiquei irritado. Aquele homem hesitante estava travando o fluxo de minha vida, dali para frente todos os eventos estariam quinze segundos atrasados: da entrega desta crônica ao meu último suspiro.
PRATA, A. A zona do agrião. Estadão, 23 dez. 2008. Disponível em: <https://goo.gl/oE4E42>. Acesso em: 30 mar. 2018.
Narrada na primeira pessoa do singular, a crônica parte de um evento corriqueiro na fila de um restaurante por quilo para elaborar uma reflexão sobre a passagem do tempo. No texto, a função metalinguística da linguagem é evidenciada no fragmento
“Segundo a etiqueta não escrita dos restaurantes por quilo, a ultrapassagem só é permitida se não for reduzir a velocidade do ultrapassado [...].”
“[...] dali para frente todos os eventos estariam quinze segundos atrasados: da entrega desta crônica ao meu último suspiro.”
“Parado, com a colher suspensa sobre a bancada de aço inox, o sujeito atravancava minha passagem.”
“Tudo é movimento, dizia Heráclito; o mundo gira, a lusitana roda, anunciava a televisão [...].”
Gabarito:
“[...] dali para frente todos os eventos estariam quinze segundos atrasados: da entrega desta crônica ao meu último suspiro.”
A) INCORRETA: pois nesse trecho não há nenhuma referência feita ao processo de formação da linguagem ou de escrita. A única que seria mais próxima, quando se menciona a etiqueta, não é adequada, pois o texto é uma crônica, e não uma etiqueta.
B) CORRETA: a primeira parte, de fato, não pode ser idenificada nenhum processo de metalinguagem. No entanto, quando é dito "da entrega desta crônica ao meu último suspiro" vemos que o autor utiliza sua própria narração, que é feita por meio do gênero da crônica, para falar que ele entregou a crônica como último suspiro. Logo, observa-se a função metalinguística.
C) INCORRETA: pois nessa alternativa temos apenas a descrição de um acontecimento narrativo, em que não se vê qualquer referência ao processo de criação da obra ou da linguagem.
D) INCORRETA: a referência a um estudo da física não pode ser considerada como um uso da função metalinguística, pois a metalinguagem é o fato de explicar a linguagem pela própria linguagem e, nesse caso, explica-se a física pela linguagem.