(UNESP - 2011/2 - 2ª FASE)
Enquanto os homens se contentaram com suas cabanas rústicas, enquanto se limitaram a costurar com espinhos ou com cerdas suas roupas de peles, a enfeitarem-se com plumas e conchas, a pintar o corpo com várias cores, a aperfeiçoar ou embelezar seus arcos e flechas, a cortar com pedras agudas algumas canoas de pescador ou alguns instrumentos grosseiros de música – em uma palavra: enquanto só se dedicavam a obras que um único homem podia criar e a artes que não solicitavam o concurso de várias mãos, viveram tão livres, sadios, bons e felizes quanto o poderiam ser por sua natureza.
O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer isto é meu e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não teria poupado ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes: “Defendei-vos de acreditar nesse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra não pertence a ninguém”.
(Jean-Jacques Rousseau. Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens. Adaptado.)
Cite a principal diferença estabelecida por Rousseau entre a vida em estado de natureza e a vida na sociedade civil, e explique o significado dessa diferença no âmbito da filosofia política.
Gabarito:
Resolução:
Para Jean-Jacques Rousseau, como expressa a sua teoria do bom selvagem, o homem, em seu estado natural, é bom sendo solitário, puro e inocente, voltado para a sobrevivência e satisfação de necessidades básicas. Na vida em sociedade, quando ele deixa essa condição na solidão da natureza, com o estabelecimento da propriedade privada e as artificialidades da vida social, corrompe-se então por esses valores, já que a sociedade insere sobre ele noções e hábitos que o levariam ao conflito e aos problemas que, segundo Rousseau, caracterizavam a sociedade. Portanto, problemas sociais como desigualdade social, roubos, assassinatos, abusos, todo tipo de opressão social, teriam origem na sociedade e na sua estrutura, com o estabelecimento da propriedade privada, e não no homem em sua condição natural.
No âmbito da filosofia política, Rousseau propõe um novo tipo de contrato para aprimorar as falhas do contrato — que institucionaliza a desigualdade social —, cuja ideia é permeada pela noção de vontade geral. O contrato estabelece-se sob a premissa de qu, se o indivíduo abandona todos os seus direitos para viver em comunidade, todos devem se abdicar igualmente. Logo, na sociedade civil, os interesses de todos e de cada um, enquanto membros do corpo coletivo, florescem na vida social, marcada pela promoção da razão e do afeto.