(UNESP - 2014/2 - 2 FASE)
TEXTO 1
A verdade é esta: a cidade onde os que devem mandar são os menos apressados pela busca do poder é a mais bem governada e menos sujeita a revoltas, e aquela onde os chefes revelam disposições contrárias está ela mesma numa situação contrária. Certamente, no Estado bem governado só mandarão os que são verdadeiramente ricos, não de ouro, mas dessa riqueza de que o homem tem necessidade para ser feliz: uma vida virtuosa e sábia.
(Platão. A República, 2000. Adaptado.)
TEXTO 2
Um príncipe prudente não pode e nem deve manter a palavra dada quando isso lhe é nocivo e quando aquilo que a determinou não mais exista. Fossem os homens todos bons, esse preceito seria mau. Mas, uma vez que são pérfidos e que não a manteriam a teu respeito, também não te vejas obrigado a cumpri-la para com eles. Nunca, aos príncipes, faltaram motivos para dissimular quebra da fé jurada.
(Maquiavel. O Principe, 2000. Adaptado.)
Comente as diferenças entre os dois textos no que se refere à necessidade de virtudes pessoais para o governante de um Estado.
Gabarito:
Resolução:
O filósofo grego Platão interpreta o problema da política a partir de uma investigação ética, pois, na República. ambas estão fundamentalmente vinculadas, e o governo da cidade é, dessa forma, determinada por uma normatividade metafísica, isto é, que a pólis seja orientada por normas e leis fundamentadas no bem e na sabedoria. O critério de governo, logo, é a justiça, realizando-se a ideia o domínio da verdade sobre a cidade. Portanto, surge a figura do rei-filósofo, que deve governar com sabedoria e justiça, o que traz a necessidade de virtudes pessoais para o governante de um Estado.
Maquiavel, ao contrário, inaugura a separação entre a ética e a política, fundando a ciência política como análise dos fatos sem o juízo de valor. Essa separação determina a distinção entre o fato e o ideal, isto é, daquilo que é, na realidade histórica e social, e daquilo que deve ser, no plano da normatividade e do ideal; a partir dessa distinção, Maquiavel introduz uma perspectiva política a partir da realidade factual, daquilo que ocorre em detrimento do que é ideal, pois, para ele, a política deve ser norteada pelas contingências históricas e não de ideais metafísicos. Assim, o pensador postula as concepções de fortuna e virtú: o príncipe deve ter a virtú para dominar a fortuna, isto é, a capacidade e a virtude de dominar o acaso e os acontecimentos que ocorrem casualmente para a permanência no poder. Esse conceito de virtude não está vinculado a um caráter ético, mas a uma técnica, pois Maquiavel desvincula a ética da política, e, por isso, não há necessidade de virtudes pessoais para o governante de um Estado.