(UNESP - 2018/2 - 2 fase - Questão 12)
Com o desenvolvimento do capitalismo, os homens tornaram-se iguais; as diferenças de casta e religião, que outrora haviam sido fronteiras naturais a impedir a unificação da raça humana, desapareceram, e os homens aprenderam a identificar-se uns aos outros como seres humanos. O mundo ficou cada vez mais emancipado de elementos mistificadores. Politicamente, também cresceu a liberdade. As grandes revoluções da Inglaterra e da França e a luta pela independência norte-americana são marcos quilométricos ao longo dessa evolução, cujo ápice foi o moderno Estado democrático, baseado no princípio da igualdade de todos os homens e no direito igual de todos a participar do governo, através de representantes de sua própria escolha. Por outro lado, o homem moderno se encontra em uma situação em que muito do que ele pensa e diz são as coisas que todos os demais pensam e dizem; ele não adquiriu a capacidade de pensar originalmente, isto é, por si mesmo, a única capacidade que pode dar conteúdo à alegação de que ninguém pode interferir na manifestação de suas ideias. No capitalismo, a atividade econômica, o sucesso, as vantagens materiais passam a ser fins em si mesmos. O destino do homem torna-se contribuir para o crescimento do sistema econômico, ajuntar capital, não tendo em vista sua própria felicidade ou salvação, mas como um fim por si mesmo.
(Erich Fromm. O medo à liberdade, 1968. Adaptado.)
a) Explique qual foi o resultado do desenvolvimento da sociedade moderna na relação dos homens com a religião. No período moderno, quais foram as transformações ocorridas no campo da política?
b) Explique a contradição apontada no progresso da liberdade humana ao longo do desenvolvimento do capitalismo. Qual é o significado filosófico de as vantagens materiais serem fins em si mesmas?
Gabarito:
Resolução:
a) O desenvolvimento da sociedade moderna, que levou ao estabelecimento de estruturas sociais e políticas burguesas, possibilitou, ainda, a construção de ideias que interpretassem essas novas estruturas, levando ao advento de uma moral burguesa, base do ideário defendido pelas Revoluções Burguesas. Essa nova moral que passou a predominar parte de uma concepção de que as dinâmicas sociais, assim como as diferenças existentes entre os indivíduos, constituem o resultado da ação dos homens de acordo com seus interesses a partir de processos sociais que são, na maioria das vezes, opressores, e não da vontade divina de nenhum ser sobrenatural. Assim, a interpretação das sociedades desvinculada de percepções mistificadas, em conjunto com a interpretação dos fenômenos naturais através do pensamento científico, também fortalecido com o processo de desenvolvimento da sociedade moderna, resultaram em um afastamento dos homens em relação ao pensamento religioso, na medida em que a razão humana se tornou o mecanismo através do qual esses homens passaram a buscar o entendimento do mundo que os cercava. Essa nova forma de pensamento se refletiu nas mudanças políticas ocorridas nesse período, com o estabelecimento de governos democráticos e laicos, baseados na capacidade humana de autogerir-se de forma juridicamente igualitária.
b) O processo de consolidação do Capitalismo, apesar de ter possibilitado a ampliação das liberdades individuais e políticas, por outro lado, diminuiu a possibilidade do pensamento autônomo. O desenvolvimento tecnológico característico das sociedades capitalistas possibilitou a veiculação em massa de pensamentos e representações sociais de forma a atender os interesses dos mercados, disseminando ideais consumistas que atribuem à ação de aquisição de bens materiais um caráter fetichizado. Dessa forma, a associação de lugares sociais de sucesso, prestígio, bem estar e beleza ao poder de consumo condiciona as ações dos indivíduos para alimentar o sistema do capital, uma vez que a aquisição material torna-se um fim em si mesma, ou seja, passa a ter valor por si só, não necessitando de nenhuma outra justificativa para a sua realização que não seja ela mesma.