(UNICAMP - 2013 - 2ª FASE)
Leia os seguintes trechos de Viagens na minha terra e de Memórias Póstumas de Brás Cubas:
Benévolo e paciente leitor, o que eu tenho decerto ainda é consciência, um resto de consciência: acabemos com estas digressões e perenais divagações minhas.
(Almeida Garrett, Viagens na minha terra. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1969, p.187.)
Neste despropositado e inclassificável livro das minhas Viagens, não é que se quebre, mas enreda-se o fio das histórias e das observações por tal modo, que, bem o vejo e o sinto, só com muita paciência se pode deslindar e seguir em tão embaraçada meada.
(Idem, p. 292.)
Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás íntimo, por que o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem...
(Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas, em Romances, vol I. Rio de Janeiro: Garnier, 1993, p. 140.)
a) No que diz respeito à forma de narrar, que semelhanças entre os dois livros são evidenciadas pelos trechos acima?
b) Que tipo de leitor esta forma de narrar procura frustrar, e de que maneira esse leitor é tratado por ambos os narradores?
Gabarito:
Resolução:
A) Nos trechos das duas narrativas acima, vemos que elas possuem uma narração de teor crítico e autocrítico, promovendo um diálogo com o leitor e recorrendo à metalinguagem. O interessante é que, em ambos os trechos, observamos um afastamento da narrativa em relação ao eixo cerne da história, uma vez que as observações são aliadas à história no momento da narrativa. Isso é o que Garrett, em Viagens na minha terra, destaca como “embaraçada meada” e o que Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas, caracteriza como estilo de “ébrio” (bêbado), que guina “à direita e à esquerda”.
B) O leitor que o texto procura frustrar é aquele que está acomodado e habituado numa sequência lógica e cronológica da narrativa, de modo regular. Dessa forma, os narradores das duas obras acima não se mostram fechados diante da decepção, mas tratam toda a situação com um toque de ironia e flexibilidade. Percebemos isso quando “Garrett” caracteriza o seu leitor, mesmo não o conhecendo, como “benévolo e paciente leitor”, enquanto em Brás Cubas atribui o defeito do livro o fato do leitor se manter o mesmo e não progredir na compreensão textual.