(UNICAMP - 2017 - 2ª FASE)
Leia com atenção os excertos abaixo de Lisbela e o prisioneiro.
“LISBELA: Compre um curió para mim.
DR. NOÊMIO: Não, Lisbela, eu não gosto de ver animais presos.
CITONHO: Por quê, Doutor?
DR.NOÊMIO: Por que isso é malvadez. Os animais foram feitos para viver em liberdade.
PARAÍBA: E como que é que o Doutor está me vendo aqui preso e nem se importa?
DR. NOÊMIO: Você é um animal?”
(Osman Lins, Lisbela e o prisioneiro. São Paulo: Planeta, 2003, p. 25.)
“DR.NOÊMIO: Lisbela, vamos. Você é minha noiva, não deve opor-se às minhas convicções. As convicções do homem devem ser, optarum causa, as de sua esposa ou noiva.”
(Ibidem.)
a) Nos trechos citados, estão presentes duas atitudes características do Dr. Noêmio com implicações morais, que são desmascaradas pelo efeito cômico do texto. Quais são essas duas atitudes características com implicações morais?
b) No segundo excerto, a expressão “minhas convicções” é dita de forma solene e expressa um valor social. Que valor é esse e que tipo de sociedade está sendo caracterizado por tal enunciado?
Gabarito:
Resolução:
a) A primeira atitude do Dr. Noêmio é defender a liberdade dos animais e, ao mesmo tempo, se mostra indiferente à privação de liberdade de Paraíba; a segunda atitude da personagem é privar a mulher de ser livre para ter as suas próprias convivções, os seus valores e suas ideias. Portanto, os dois excertos elaboram a oposição entre liberdade e coação. O respeito que o Dr. Noêmio demonstra pela natureza dos bichos não encontra contrapartida em sua atitude em relação a sua noiva, ao direito dela de ser livre para ter suas convivções e à situação de encarceramento de Paraíba.
b) O valor apontado consiste na superioridade e na dominação masculinas, e a sociedade em questão é a do tipo patriarcal. Nota-se, no segundo excerto, um uso pretensamente técnico e formal da linguagem, para marcar a posição social da personagem masculina e conferir ao enunciado um argumento de autoridade. Levando-se em consideração a natureza da crítica moral da peça de Osman Lins, o que se conclui é que o dramaturgo coloca na berlinda o machismo como traço constitutivo da sociedade patriarcal.