(UNICAMP - 2017 - 2ª FASE)
Leia o soneto abaixo, de Luís de Camões.
“Enquanto quis Fortuna que tivesse esperança de algum contentamento, o gosto de um suave pensamento me fez que seus efeitos escrevesse. Porém, temendo Amor que aviso desse minha escritura a algum juízo isento, escureceu-me o engenho com tormento, para que seus enganos não dissesse. |
Ó vós, que Amor obriga a ser sujeitos a diversas vontades! Quando lerdes num breve livro casos tão diversos, verdades puras são, e não defeitos... E sabei que, segundo o amor tiverdes, Tereis o entendimento de meus versos!” |
(Disponível em http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000164.pdf. Acessado em 02/08/2016.)
a) Nos dois quartetos do soneto acima, duas divindades são contrapostas por exercerem um poder sobre o eu lírico. Identifique as duas divindades e explique o poder que elas exercem sobre a experiência amorosa do eu lírico.
b) Um soneto é uma composição poética composta de 14 versos. Sua forma é fixa e seus últimos versos encerram o núcleo temático ou a ideia principal do poema. Qual é a ideia formulada nos dois últimos versos desse soneto de Camões, levando-se em consideração o conjunto do poema?
Gabarito:
Resolução:
a) A primeira divindade é a Fortuna, que ajuda o eu lírico a escrever, isto é, a fazer um registro de sua experiência amorosa. A segunda divindade é o Amor, que dificulta o engenho do poeta, produz enganos e sujeita aquele que ama. Portanto, o soneto elabora a tensão entre o ato de criação poética, marcado por certo contentamento e "o gosto de um suave pensamento", e os efeitos contraditórios que o Amor produz na experiência criativa e amorosa do eu lírico.
b) A tese defendida é a de que o entendimento dos versos é possível na medida em que o leitor experimente o amor. Por conseguinte, a escrita do poema é produção dotada de sentido com lastro na experiência e compreensível em um grau proporcional à experiência existencial do possível leitor da obra lírica.