(Modelo IME)
APÓS A LEITURA DOS TEXTOS A SEGUIR APRESENTADOS, RESPONDA ÀS QUESTÕES PROPOSTAS.
Publicado em 1907, o conto "Pai contra mãe" é um dos mais célebres de Machado de Assis. Nele, além da narrativa ficcional, o autor elabora uma refinada e irônica crítica a seu tempo e aos flagelos da recém-abolida escravidão na constituição da sociedade brasileira. A introdução do conto, reproduzida abaixo, é uma espécie de comentário, um breve ensaio sobre aparelhos e sistemas que mantiveram, fisica e politicamente, o cativeiro de pessoas escravizadas, legitimando a desigualdade racial e social que atravessa a história do Brasil desde o período colonial até a contemporaneidade.
Texto 1
Pai contra mãe
1 A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais.
Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço,
outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha de flandres. A máscara fazia perder o vício
da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dois para ver, um
5 para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber, perdiam
a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar
a sede, e aí ficavam dous pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca
tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o
cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras.
10 O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa, com a haste
grossa também à direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça e fechada atrás com chave. Pesava,
naturalmente, mas era menos castigo que sinal. Escravo que fugia assim, onde quer que andasse,
mostrava um reincidente, e com pouco era pegado.
Há meio século, os escravos fugiam com frequência. Eram muitos, e nem todos gostavam da
15 escravidão. Sucedia ocasionalmente apanharem pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada.
Grande parte era apenas repreendida; havia alguém de casa que servia de padrinho, e o mesmo dono
não era mau; além disso, o sentimento da propriedade moderava a ação, porque dinheiro também dói.
A fuga repetia-se, entretanto. Casos houve, ainda que raros, em que o escravo de contrabando, apenas
comprado no Valongo, deitava a correr, sem conhecer as ruas da cidade. Dos que seguiam para casa,
20 não raro, apenas ladinos, pediam ao senhor que lhes marcasse aluguel, e iam ganhá-lo fora, quitandando.
Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lho levasse. Punha anúncios nas folhas
públicas, com os sinais do fugido, o nome, a roupa, o defeito físico, se o tinha, o bairro por onde andava e a
quantia de gratificação. Quando não vinha a quantia, vinha promessa: "gratificar-se-á generosamente", — ou
"receberá uma boa gratificação". Muita vez o anúncio trazia em cima ou ao lado uma vinheta, figura de preto,
25 descalço, correndo, vara ao ombro, e na ponta uma trouxa. Protestava-se com todo o rigor da lei contra quem
o acoitasse.
Ora, pegar escravos fugidios era um ofício do tempo. Não seria nobre, mas por ser instrumento da força com
que se mantêm a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza implícita das ações reivindicadoras. Ninguém se
metia em tal ofício por desfastio ou estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros
30 trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir também, ainda que por outra via, davam o impulso ao homem
que se sentia bastante rijo para pôr ordem à desordem. [...]
ASSIS, Machado de. Pai contra mãe. In: _________. 7 contos.
Belo Horizonte: Editora Miguilim, 2017, p. 65-66.
Glossário:
*funileiros - profissionais metalúrgicos especializados no trabalho com a folha de flandres
*ladinos - escravos que já possuíam certo grau de aculturação;
*desfastio - prazer, entretenimento;
*achega - rendimento, lucro.
Texto 2
Sobre a herança da escravidão
1 As explicações estruturais para a persistência do racismo na economia têm, historicamente, propiciado um
grande debate sobre a herança da escravidão. Esta questão é relevante, pois é preciso discutir a escravidão
e o racismo sob o prisma da economia política.
Sobre a relação entre escravidão e racismo, há basicamente duas explicações. A primeira parte da afirmação
5 de que o racismo decorre das marcas deixadas pela escravidão e pelo colonialismo. Conforme este raciocínio,
as sociedades contemporâneas, mesmo após o fim oficial dos regimes escravistas, permaneceriam presas a
padrões mentais e institucionais escravocratas, ou seja, racistas, autoritários e violentos. Dessa forma, o racismo
seria uma espécie de resquício da escravidão, uma contaminação essencial que, especialmente nos países
periféricos, impediria a modernização das economias e o aparecimento de regimes democráticos. No caso
10 dos países centrais, as marcas da escravidão poderiam ser vistas na discriminação econômica e política
a que são submetidas as minorias raciais, como é o caso da população negra e latina nos Estados Unidos
e dos imigrantes não brancos na Europa.
Outra corrente, apesar de não negar os impactos terríveis da escravidão na formação econômica e social
brasileira, dirá que as formas contemporâneas do racismo são produtos do capitalismo avançado e da racionalidade
15 moderna, e não resquícios de um passado não superado. O racismo não é um resto da escravidão, até mesmo
porque não há oposição entre modernidade/capitalismo e escravidão. A escravidão e o racismo são elementos
constitutivos tanto da modernidade, quanto do capitalismo, de tal modo que não há como desassociar um do outro.
O racismo, de acordo com esta posição, é uma manifestação das estruturas do capitalismo, que foram forjadas
pela escravidão. Isso significa dizer que a desigualdade racial é um elemento constitutivo das relações mercantis
20 e de classe, de tal sorte que a modernização da economia e até seu desenvolvimento podem representar momentos
de adaptação dos parâmetros raciais a novas etapas da acumulação capitalista. Em suma: para se renovar, o capitalismo
precisa muitas vezes renovar o racismo, como, por exemplo, substituir o racismo oficial e a segregação legalizada
pela indiferença diante da igualdade racial sob o manto da democracia.
O crescimento econômico pode ser considerado o aumento da produção e do lucro, o que não necessariamente
25 implica aumento de salário. Nesse contexto, o racismo pode ser uma excelente tecnologia de controle social, porque
“naturaliza” o pagamento de salários mais baixos para trabalhadores e trabalhadoras pertencentes a grupos minoritários.
Outro efeito importante do racismo para o “crescimento” é servir de instrumento de dissuasão dos trabalhadores brancos,
que pensarão duas vezes antes de reivindicar aumento salarial em uma situação em que poderiam ser substituídos a
qualquer tempo por negros ou imigrantes, geralmente mais baratos e, por serem mais suscetíveis ao desemprego, mais
30 facilmente disponíveis no mercado como “exército reserva de mão de obra”.
ALMEIDA, Silvio Luiz de. Sobre a herança da escravidão. In: _________. Racismo estrutural.
São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2019, p. 112 - 113.
Considerando os textos apresentados, assinale a alternativa correta.
Enquanto o Texto 1 enfatiza as punições físicas, o Texto 2 reflete sobre os impactos psicológicos do regime escravocrata para as pessoas escravizadas.
Por ser um conto, o Texto 1 acrescenta à argumentação elementos fantasiosos e fantásticos, ao passo que o Texto 2 se atém ao que é necessariamente factual.
Em ambos os textos é possível detectar a interseção entre as pautas econômica e racial, evidenciadas pelos autores como esferas sociais intimamente conectadas.
A principal intenção do Texto 1 é a realização estética, ao passo que a do Texto 2 é a exposição de informações, o que se revela em suas linguagens — poética e referencial, respectivamente.
O contraste entre as épocas de escrita dos textos fica evidente, uma vez que a profundidade e propriedade que o autor do Texto 2 possui para falar sobre as questões raciais é superior ao que se vê no Texto 1.
Gabarito:
Em ambos os textos é possível detectar a interseção entre as pautas econômica e racial, evidenciadas pelos autores como esferas sociais intimamente conectadas.
a) Alternativa incorreta. Apesar de o texto 1 falar mais sobre as punições físicas, ele deixa implícito, através do modo como a escrita foi estabelecida, os efeitos psicológicos das torturas, o peso disso para quem as sofre.
b) Alternativa incorreta. Raramente o conto se desliga totalmente da realidade em que vivemos, e isso pode ser observado no texto 1, já que as armas de tortura para escravos são historicamente reais.
c) Alternativa correta. No texto 1, Machado de Assis discorre acerca da questão econômica atrelada à escravidão, como o prazer que essas atividades causavam nos mais ricos, enquanto no texto 2, Silvio Luiz de Almeida interseciona as lutas raciais ao capitalismo.
d) Alternativa incorreta. O texto 1 pode até, por ser um conto, ter um caráter narrativo mais proeminente, mas ainda reflete sobre a situação social do país, com reflexões justamente acerca da realidade.
e) Alternativa incorreta. Apesar de os textos possuírem pontos de vista diferentes e níveis de informatividade diferentes, o objetivo do texto 1 não é simplesmente informar. Não se pode afirmar que um trata da questão com mais propriedade que o outro, já que isso está intrinsecamente ligado às propostas dos textos.